São Bernardo e as três motivações do coração

Homilia de D. Bernardo Bonowitz para a Solenidade de São Bernardo de Claraval

20 de agosto de 2019

Em seu “Tratado sobre o Amor de Deus”, São Bernardo apresenta uma de suas tríades mais importantes.  O tema é a nossa motivação de fundo. O que está na raiz de nosso pensamento, de nossas atitudes, de nosso comportamento? O que nos faz agir?

Para Bernardo, não é questão de “às vezes é x, às vezes é y”. Certamente podemos avançar de uma motivação mais baixa para outra mais alta; mas enquanto nos encontramos numa determinada etapa motivacional, é esta, e sempre esta, a mesma motivação básica.

Segundo o abade de Claraval, a pior e mais primitiva motivação é o medo. “O que os outros pensarão de mim, o que poderão fazer contra mim? Que pressão eles me poderão aplicar, que sofrimento, desgraça ou exclusão poderão impor?” Mas para São Bernardo, a situação particular não é de grande importância, porque o medo de fundo permanece constante. Se temos medo de um, temos medo de todos: de Deus, de nossos pais, do abade, da comunidade, do futuro, do passado. Pensemos na afirmação de São Paulo: “Nada pode separar-nos do amor de Cristo”. O medroso diria que Paulo está muito enganado: “Não: tudo pode separar-nos do amor de Cristo… A vida é difícil e hostil. Eu obedeço porque só de pensar nas conseqüências da minha inconformidade às normas já sinto calafrios…”

A motivação intermediária é o interesse, o interesse próprio. O interesseiro – Bernardo o chama “comerciante” – deseja levar vantagem em tudo. Tudo pode ser explorado, aproveitado. E não apenas tudo, mas também todos. A toda ordem, digo, “Sim, senhor” com presteza, porque sei que há algo que este senhor possui e que eu quero: um privilégio, uma permissão, um favor – e a minha obediência pode ser exatamente a moeda certa para ganhar o que desejo. Quem faz isto com os superiores, também o faz com os amigos, os colegas, os estranhos. E também o faz com Deus. É um estilo de vida. Tudo se resolve em termos de compra e venda.

Façamos uma pausa para dizer que não é tão fácil perceber qual é a nossa motivação de fundo. O medroso tem medo de conhecê-la (faz sentido, não?), e o comerciante vê que não será vantajoso para a sua auto-estima reconhecer-se como alguém dominado pelo pensamento de perda ou lucro. Mas não reconhecer não significa não ser.  

A terceira motivação é o amor. Mais uma vez, o sujeito é totalmente previsível. Se ele faz um afago no gatinho de estimação, é porque gosta dele. Não tem medo dele, nem espera dele recompensa alguma, nem mesmo um miado. Ele o ama. Como Bernardo diz em uma de suas frases mais famosas: “Amo porque amo”. E age desta mesma forma com pessoas no ônibus, no supermercado; com cardeais, com xeiques, com governadores e reis. Não precisa aprovar o comportamento da pessoa, mas espontaneamente encontra algo amável no outro. Como poderia ser diferente? Para aquele que é motivado pelo amor, tudo o que existe é digno de amor. Se Platão falou da equivalência entre o Ser e o Bem, aquele que ama vive esta realidade entre o ser e o digno de ser amado. Se ele existe, eu o amo.

Agora vem a afirmação mais importante, a meu ver. Bernardo diz que, por sua natureza, o medo e o interesse são absolutamente não-transformativos. Podemos agir por medo um milhão de vezes; não cresceremos nem um milímetro. O mesmo vale para o interesse. No parágrafo 34 do Tratado, Bernardo afirma que o temor constringe, e a concupiscência (a qualidade do mercenário) estorva. Só o amor é dinâmico: ele converte as almas e as faz agir voluntariamente”, quer dizer, livremente. O medo, o interesse e o amor são todas leis para São Bernardo. Mas só o amor é uma lei que de certa forma não é lei, porque não é imposta, mas é ação de nossa própria liberdade. Por isso São Bernardo diz que o amor é uma “lei imaculada”. E mais: é a mesmíssima lei à qual o próprio Deus obedece. Quando você age por amor, você e Deus vivem segundo a mesma lei.

Evidentemente, Bernardo não está oferecendo apenas uma exposição, ele está fazendo um convite: “Sai da tua terra e de tua parentela”, seja ela o medo ou o interesse. Vem habitar na terra prometida, “terra onde corre leite e mel”: a terra da Caridade, onde tudo é motivado pelo amor. ⊕       

D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, Paraná

Fonte: O Caminho Cisterciense

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Frade Franciscano da Ordem dos Frades Menores, OFM, Pároco da Paróquia de N Sra da Glória e São Judas Tadeu, Bairro da Alemanha, São Luis/MA. Escreva-me uma mensagem, um pedido de oração etc, responderei com alegria ao seu contato o mais breve possível! Paz e Bem!

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