Formação Permanente Frei Bernardo OFM

Papa Francisco à vida Consagrada

“Quantas vezes encontramos sacerdotes, consagrados e consagradas, tristes. A tristeza espiritual é uma doença. Tristes porque não saudáveis. Tristes porque não encontram o amor, porque não são enamorados, enamorados do Senhor”.

A íntegra do pronunciamento do Papa Francisco aos sacerdotes, consagrados e seminaristas, reunidos na Catedral de São Pedro e São Paulo em Kaunas.

Queridos irmãos e irmãs, boa tarde!

Antes de mais nada, gostaria de dizer um sentimento que tenho. Olhando para vocês, vejo muitos mártires atrás de vocês. Mártires anônimos, no sentido de que nem sabemos onde eles foram enterrados. Também alguém de vocês: eu cumprimentei alguém [de vocês], [que] soube o que era a prisão. Vem-me à mente uma palavra para começar: não esqueçam, recordem-se. Vocês são filhos dos mártires. Essa é sua força.

E o espírito do mundo não venha para lhes dizer outra coisa diferente daquela que seus antepassados ​​viveram. Recordem-se de seus mártires e sempre tomem sempre o exemplo deles: não tinham medo. Falando com os bispos, seus bispos hoje, disseram: “Como podemos apresentar a causa da beatificação para muitos dos quais não temos documentos, mas sabemos que eles são mártires?”. É um consolo, é bonito ouvir isso: a preocupação por aqueles que nos deram testemunho. São santos.

O bispo falou sem nuances: os franciscanos falam assim. “Hoje, de muitas maneiras, nossa fé é colocada à prova”: disse ele. Ele pensava não porque fossem os ditadores a persegui-los – não – “depois de ter respondido ao chamado à vocação, muitas vezes não sentimos mais alegria, nem na oração, nem na vida comunitária”.

O espírito de secularização, do tédio para tudo o que diz respeito à comunidade é a tentação da segunda geração. Nossos pais lutaram, sofreram, foram presos e talvez não tenhamos forças para seguir em frente. Ter consciência disso, eh?

O livro dos Atos dos Apóstolos fazia uma exortação: “Não se esqueçam dos primeiros dias. Não esqueça seus antepassados​”. Esta é a exortação que eu inicialmente dirijo a vocês.

Toda a visita ao vosso país decorreu sob este lema: «Jesus Cristo, nossa esperança». Já quase no final deste dia, encontramos um texto do apóstolo Paulo que nos convida a esperar com constância. E faz este convite depois de nos ter anunciado o sonho de Deus para cada ser humano, mais ainda, para toda a criação: «tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28); a tradução literal seria «endireita» todas as coisas.

Hoje gostaria de partilhar convosco alguns traços característicos desta esperança; traços que nós – sacerdotes, seminaristas, consagrados e consagradas – somos chamados a viver.

Antes de nos convidar à esperança, Paulo repetiu três vezes a palavra «gemer»: geme a criação, gemem os homens, geme o Espírito em nós (cf. Rm 8, 22-23.26). Geme-se pela escravidão da corrupção, pelo anseio à plenitude. Hoje, far-nos-á bem perguntar se aquele gemido está presente em nós ou se, pelo contrário, já nada grita na nossa carne, nada anela pelo Deus vivo. Como dizia o nosso bispos: “não sentimos mais a alegria na oração, na vida comunitária”.

O gemido da corça sequiosa por falta de água deveria ser o nosso na busca da profundidade, da verdade, da beleza de Deus. Caríssimos, nós não somos “funcionário de Deus”.

Talvez a «sociedade do bem-estar» nos tenha deixado demasiadamente saciados, cheios de serviços e de bens, e encontramo-nos «pesados» de tudo e cheios de nada; talvez nos tenha deixado aturdidos ou dissipados, mas não cheios. É pior: tantas vezes não sentimos mais fome. Somos nós, homens e mulheres de especial consagração, aqueles que não podem jamais permitir-se a perda daquele gemido, daquela inquietude do coração que só no Senhor encontra repouso (cf. Santo Agostinho, Confissões, I, 1,1). A inquietação do coração.

Nenhuma informação imediata, nenhuma comunicação virtual instantânea pode privar-nos dos tempos concretos, prolongados, para conquistar – é precisamente disto que se trata: de um esforço constante – para conquistar um diálogo diário com o Senhor através da oração e da adoração. Trata-se de cultivar o nosso desejo de Deus, como escrevia São João da Cruz. Dizia assim: «Sê assíduo na oração, sem a deixares sequer no meio das ocupações exteriores. Quer comas ou bebas, quer fales ou trates com os seculares quer faças qualquer outra coisa, deseja sempre a Deus mantendo n’Ele o afeto do coração» (Conselhos para alcançar a perfeição, 9).

Este gemido deriva também da contemplação do mundo dos homens, sendo um apelo à plenitude face às necessidades insatisfeitas dos nossos irmãos mais pobres, perante a falta de sentido da vida dos mais novos, a solidão dos idosos, os abusos contra o meio ambiente. É um gemido que procura organizar-se para influenciar os acontecimentos duma nação, duma cidade; não como pressão ou exercício de poder, mas como serviço. O grito do nosso povo deve-nos importunar como a Moisés, a quem Deus revelou o sofrimento do seu povo no encontro junto da sarça ardente (cf. Ex 3, 9). Escutar a voz de Deus na oração faz-nos ver, nos faz ouvir, conhecer o sofrimento dos outros para os podermos libertar. Mas de igual modo devemos sentir-nos importunados quando o nosso povo deixou de gemer, deixou de procurar a água que mata a sede. É hora também para discernir o que está a anestesiar a voz do nosso povo.

O clamor que nos faz procurar a Deus na oração e na adoração é o mesmo que nos faz escutar o lamento dos nossos irmãos. Eles «esperam» em nós e, a partir dum discernimento atento, precisamos de nos organizar, programar e ser ousados e criativos no nosso apostolado. Que a nossa presença não seja deixada à improvisação, mas dê resposta às necessidades do povo de Deus e seja, assim fermento na massa (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 33).

Mas o Apóstolo fala também de constância; outra palavra que usa; constância no sofrimento, constância em perseverar no bem. Isto significa estar centrados em Deus, permanecendo firmemente enraizados n’Ele, ser fiéis ao seu amor.

Vós, os mais idosos (como não mencionar Mons. Sigitas Tamkevicius?), sabereis testemunhar esta constância no sofrimento, este «esperar contra toda a esperança» (cf. Rm 4, 18). A violência usada contra vós por ter defendido a liberdade civil e religiosa, a violência da difamação, o cárcere e a deportação não puderam vencer a vossa fé em Jesus Cristo, Senhor da história. Por isso, tendes tanto a dizer-nos e ensinar-nos, e muito também a propor, sem precisar de julgar a aparente fraqueza dos mais jovens.

E vós, mais jovens, quando vos vedes confrontados com as pequenas frustrações que vos desanimam e tendeis a fechar-vos em vós mesmos, recorrendo a comportamentos e evasões que não são coerentes com a vossa consagração, procurai as vossas raízes e olhai o caminho percorrido pelos idosos. Espero que existam jovens aqui. Repito, porque há jovens. E vós, mais jovens, quando vos vedes confrontados com as pequenas frustrações que vos desanimam e tendeis a fechar-vos em vós mesmos, recorrendo a comportamentos e evasões que não são coerentes com a vossa consagração, procurai as vossas raízes e olhai o caminho percorrido pelos idosos. É melhor que tomem outro caminho do que viver na mediocridade. Isto para os jovens. Vocês ainda estão em tempo: a porta está aberta.

São precisamente as tribulações que delineiam os traços distintivos da esperança cristã, porque, quando é apenas uma esperança humana, podemos sentir-nos frustrados e esmagados com o fracasso; mas não acontece o mesmo com a esperança cristã: esta sai mais límpida, mais experimentada do crisol das tribulações.

É verdade que estes são outros tempos e vivemos noutras estruturas, mas é verdade também que estes conselhos são melhor assimilados quando as pessoas que viveram aquelas duras experiências não se fecham, mas compartilham-nas aproveitando os momentos comuns. As suas histórias não aparecem cheias de saudade pelos tempos passados apresentados como melhores, nem de acusações dissimuladas contra aqueles que têm estruturas afetivas mais frágeis. A provisão de constância duma comunidade de discípulos é eficaz, quando sabe integrar – como o escriba – o novo e o velho (cf. Mt 13, 52), quando está ciente de que a história vivida é raiz para que a árvore possa florescer.

Por fim, olhar para Cristo Jesus como nossa esperança significa identificar-nos com Ele, participar comunitariamente no seu destino. Para o apóstolo Paulo, a salvação esperada não se limita a um aspeto negativo – libertação duma tribulação interna ou externa, temporal ou escatológica –, mas a ênfase está colocada em algo altamente positivo: a participação na vida gloriosa de Cristo (cf. 1 Ts 5, 9-10), a participação no seu Reino glorioso (cf. 2 Tm 4, 18), a redenção do corpo (cf. Rm 8, 23-24). Trata-se, portanto, de vislumbrar o mistério do projeto único e irrepetível que Deus tem para cada um, para cada um de nós. Pois não há ninguém que nos conheça e nos tenha conhecido tão profundamente como Deus; por isso Ele nos destinou para algo que parece impossível, apostar sem possibilidade de erro que reproduzamos a imagem de seu Filho. Ele colocou as suas expectativas em nós, e nós esperamos n’Ele.

Nós: um «nós» que integra, mas também supera e excede o «eu»; o Senhor chama-nos, justifica-nos e glorifica-nos juntos; e juntos, até ao ponto de incluir a criação inteira. Muitas vezes colocamos tanta ênfase na responsabilidade pessoal que a dimensão comunitária se tornou um pano de fundo, apenas um ornamento. Mas o Espírito Santo reúne-nos, reconcilia as nossas diferenças e gera novos dinamismos para dar impulso à missão da Igreja (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 131; 235).

Este templo, onde estamos reunidos, é dedicado aos Santos Pedro e Paulo. Ambos os apóstolos estavam cientes do tesouro que lhes fora dado; ambos, em momentos e modos diferentes, foram convidados a «fazer-se ao largo» (cf. Lc 5, 4). No barco da Igreja, estamos todos, sempre procurando clamar a Deus, ser constantes no meio das tribulações e ter Cristo Jesus como objeto da nossa esperança. E este barco reconhece no centro da sua missão o anúncio da glória esperada que é a presença de Deus no meio do seu povo, em Cristo ressuscitado, e que um dia, ansiosamente esperado por toda criação, se manifestará nos filhos de Deus. Este é o desafio que nos impele: o mandato de evangelizar. É a razão da nossa esperança e alegria.

Quantas vezes encontramos sacerdotes, consagrados e consagradas, tristes. A tristeza espiritual é uma doença. Tristes porque não saudáveis. Tristes porque não encontram o amor, porque não são enamorados, enamorados do Senhor. Eles deixaram de lado uma vida de matrimônio, de família, e quiseram seguir o Senhor. Mas agora se cansaram, parece. E vem a tristeza. Por favor, quando vocês se encontrarem tristes, parem. E procurem um padre sábio, uma irmã sábia. Não sábia porque se formou na Universidade, não, não por isto. Sábio ou sábia porque foi capaz de seguir em frente no amor. Vão pedir um conselho. Quando começa aquela tristeza, podemos profetizar que se não é curada em tempo, fará de vocês “solteirões” e “solteironas”, homens e mulheres que não são fecundos. E desta tristeza tenham medo, eh! O diabo a semeia.

A barca da Igreja reconhece no centro de sua missão o anúncio daquela esperada glória, que é a presença de Deus no meio de seu povo, em Cristo ressuscitado e que um dia, ansiosamente esperado por toda a criação, se manifestará em filhos de Deus.

E hoje, aquele mar de gente, hão de ser «os cenários e os desafios sempre novos» desta Igreja em saída. Devemos interrogar-nos novamente: Que nos pede o Senhor? Quais são as periferias que mais precisam da nossa presença, para lhes levar a luz do Evangelho? (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 20).

Caso contrário, se vocês não têm alegria da vocação, quem poderá acreditar que Jesus Cristo é a nossa esperança? Só o nosso exemplo de vida dará razão da nossa esperança n’Ele.

Há outra coisa que está ligada à tristeza: confundir a vocação com uma empresa, com uma empresa de trabalho. “Eu trabalho nisso, eu trabalho nisso, me entusiasmo com isso, e estou feliz porque tenho isso”. Mas amanhã, vem um bispo ou outro bispo ou  o mesmo bispo, ou vem outro superior, superiora, e diz a você: “Não, corte isso e siga por esse caminho”.

É o momento da derrota, por quê? Porque ele está lá, você vai perceber que você foi em uma estrada equivocada: você verá que o Senhor, que chamou você para amar, está desapontado por você, porque você preferiu ser uma pessoa de negócios.

No começo eu disse a vocês que a vida de seguir Jesus não é a vida de “funcionário” e “funcionária”: é a vida do amor do Senhor e do zelo apostólico pelas pessoas. Eu farei uma caricatura: o que faz um padre “funcionário”? Ele tem seu horário, seu escritório, ele abre o escritório naquele momento, ele faz o trabalho, ele fecha o escritório e as pessoas estão lá fora: ele não se aproxima das pessoas.

Queridos irmãos e irmãs, se vocês não quiserem ser um “funcionário”, direi uma palavra: “proximidade”. Proximidade, proximidade. Proximidade ao Tabernáculo, face a face com o Senhor. E proximidade com as pessoas. “Mas, padre, as pessoas não vêm …” Vá encontra-las! Vá visitá-las! “Mas os jovens não vêm … os jovens não vêm hoje …”. Mas, inventa alguma coisa: o oratório – vamos lá – para ajudá-los, para ajudá-los. Proximidade com as pessoas. E proximidade com o Senhor no Tabernáculo. O Senhor quer vocês pastores e pastoras do povo, e não clérigos de Estado. E não clérigos de Estado.

Depois direi uma coisa às irmãs, mas depois…

Proximidade quer dizer misericórdia. Nesta terra onde Jesus se revelou como o Jesus misericordioso, um sacerdote não ser não misericordioso. E especialmente no confessionário: pensem em como Jesus receberia essa pessoa. Mas vida a judiou o suficiente, aquele pobre homem … Faça-o sentir o abraço do Pai que perdoa. Se você não pode dar-lhe a solução, por exemplo, mas dê a ele o consolo de irmão, de pai. Incentive-o a seguir em frente. Convença-o de que Deus perdoa tudo. Mas isso com o calor de um pai. Nunca expulse ninguém do confessionário. Nunca mande embora: “Mas olha você não pode …. Agora [isso] eu não posso ….”. “Mas Deus ama você, você reza, volta e falaremos sobre a vida”. Assim. Proximidade: isso é ser padre. Você não se importa com aquele pecador, que o expulse assim? Não estou falando daqui, porque não conheço vocês. Eu falo dos outros [realidade]. E misericórdia. O confessionário não é o consultório de um psiquiatra. O confessionário não é para escavar nos corações das pessoas.

E por isso, queridos sacerdotes, a proximidade para vocês também significa ter um vísceras de misericórdia. E as entranhas de misericórdia, vocês sabem onde se compram? Lá, no Tabernáculo.

E você, queridas irmãzinhas, tantas vezes se vê freiras que são bravas, hein? Todas as freiras são bravas. Mas que conversam, conversam, conversam … Mas pergunte a quem está em primeiro lugar do outro lado – a penúltima – se na prisão ela tinha tempo para conversar, enquanto costurava luvas. Pergunte a ela. Por favor, sejam mães. Sejam mães, porque vocês são ícone da Igreja e de Nossa Senhora. E que cada pessoa que vê vocês, veja a Mãe da Igreja e a Mãe Maria. Não esqueçam disso. E a Mãe Igreja não é “solteirona”. A Mãe Igreja não fofoqueia: ama, serve, faz crescer. A proximidade de vocês é ser mãe: ícone da Igreja e ícone de Nossa Senhora.

Proximidade ao Tabernáculo e à oração. Aquela sede da alma da qual falei, e com os outros. Serviço sacerdotal e vida consagrada não de “funcionários”, mas de pais e mães de misericórdia. E se vocês fizerem isso, vocês terão um lindo sorriso e olhos brilhantes! Porque vocês terão a alma cheia de ternura, de mansidão, de misericórdia, de amor, de paternidade e maternidade. E rezem por este pobre bispo. Obrigado!

Fonte: VATICAN NEWS 

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Sou Frade da Ordem dos Frades Menores, OFM, Bacabal/MA. Temos em comum um coração franciscano e o desejo de divulgar e conhecer sempre mais a Espiritualidade e a Mística de São Francisco e Santa Clara de Assis! Que bom ter você como um irmão e irmã nesta peregrinação! Clique aqui e me envie um e-mail para mais informações! . Paz e Bem !

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